Da loucura à sanidade

Quando o povo hebreu saiu do Egito e atravessou o deserto em busca da Terra Prometida, eles não tinham realmente uma idéia do que se tratava a liberdade. Foi preciso quarenta anos de amadurecimento, muitas reclamações, saudades das cebolas do Egito, muita paciência e pedagogia de Deus com seu povo. O Exôdo é apenas a prefiguração daquilo que Jesus iria trazer para a humanidade. Também o Cristo, ao se encarnar, teve de lidar com um povo que desconhecia a liberdade. Ao ensinar, muitas vezes tentaram proclamá-lo rei, outras tantas tentaram matá-lo. Quantos viram no milagre da multiplicação dos pães somente a oportunidade de saciar a sua fome material, mais uma vez desconheciam a liberdade.

Diante do desconhecido, existe sempre a tentação de negar ou inventar. O homem moderno desconhece, assim como os hebreus no deserto e o povo no tempo de Jesus, a liberdade, a vida virtuosa, a vida que os santos viveram. Falar em vencer a escravidão dos vícios e viver a liberdade das virtudes parece coisa de maluco, pessoa antiquada, que desconhece os tempos em que vivemos. Infelizmente, hoje não aceitamos outra hipótese a não ser que somos o ápice da evolução humana. Não podemos nem supor que ao invés de evoluirmos, nós decaímos. Isso é, com certeza, soberba, talvez até loucura. Mas como explicar a loucura aos loucos?

O louco é o devoto mais fiel de sua loucura, o crente mais fervoroso de sua verdade e é exatamente isso que o faz louco. Quando fazemos algo que foge do normal, nós podemos rir ou chorar, ficar com vergonha, mudar de atitude, no entanto o louco é convicto. Talvez o louco até encontre em nós sinais que ele definiria como loucura. Talvez para ele sejamos loucos de comer com garfo e faca se definitivamente o normal é utilizar canudos. O louco possui seus próprios padrões, seu mundo já está desenhado conforme sua loucura, ele não consegue ver além dela. E não é uma vida louca, no sentido usado por algumas pessoas como divertimento, mas sim uma vida monótona.  Como diz Chesterton: “Um homem que imagina ser uma galinha é para si mesmo tão comum como uma galinha. Um homem que imagina ser um caco de vidro é para si mesmo tão sem graça quanto um caco de vidro.”

Seria pertinente perguntar, caso a sanidade ainda resida em nós, se então o cristianismo seria mais uma forma de loucura e todo esse papo de vícios, virtudes e liberdade não seria mais uma esquisitice mental. O cristianismo seria loucura se toda a confiança que eu tenho estivesse depositada em mim, em  minhas idéias ou no que eu acho. Umas das doutrinas básicas e mais observáveis do cristianismo, caso não estejamos ainda loucos, é o pecado original. Quem é cristão deve saber da sua tendência ao erro. Assim, como quem é cristão sabe que no fundo de sua consciência existe o impulso para conhecer o bem e colocá-lo em prática. A loucura entra em jogo exatamente quando falta um desses dois conhecimentos. É típico do louco não se importar com seus erros e atitudes, assim como a frieza monótona é típica em quem não reconhece em si a bondade.

A travessia para a sanidade começa quando deixamos de confiar em nós mesmos. Isso mesmo, contra a grande maioria dos livros de auto ajuda que afagam o intelecto ao invés de libertá-lo, o caminho da sanidade passa por desconfiar primeiramente de nós mesmos. Não é uma atitude negativa de vigilância, mas uma postura humilde diante do que somos. O senso comum já nos ensina que o erro é humano. No entanto, parar neste primeiro ponto seria insensato e negaria outra parte do que somos, a parte que nos impulsiona para o bem. Desconfiar de nós e ao mesmo tempo confiar na voz que fala em nós, mas está acima de nós é a porta para sairmos da loucura.

Os Evangelhos, os sacramentos, a vida dos santos, os tempos litúrgicos são formas de nos conduzir para esta sanidade que a Igreja dá o nome de santidade. A quaresma pode ser um caminho profundo de autoconhecimento, uma travessia que nos liberta da loucura que faz nossa vida ser tão monótona. Nós não conhecemos a liberdade que nos aguarda após esta jornada. Espero sinceramente que você tenha a graça de ser sincero com você. Que você possa olhar para sua vida, fazer seu exame de consciência, rir ou chorar, sentir vergonha, mudar de atitude. Espero de você a atitude dos sãos. Ou então, confie em si mesmo …

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