A purificação da imaginação e a prática das virtudes

Por Fabiano Vasconcelos

Cada vez mais a sociedade lê menos, seja em quantidade ou em qualidade. Cada vez mais novelas e filmes tomam espaço na vida das pessoas com muitos valores contrários a uma vida virtuosa. Quase todo mundo possui um smartphone e gasta seu tempo em conversas por redes sociais, compartilhando imagens e vídeos, opinando sobre tudo e sobre todos, aderindo à nova moda do momento. Cada vez menos as pessoas meditam. Cada vez menos as pessoas refletem sobre sua vida, mas o pior: cada vez menos as pessoas têm o material necessário para isso.

Para entender melhor este raciocínio, é preciso antes conhecer uma faculdade da alma chamada imaginação. Ela se trata de uma faculdade sensitiva, ou seja, está ligada aos nossos sentidos, mas diferente dos demais em que seu objeto está presente de forma real, a imaginação retém sensações reais e pode reproduzi-las segundo uma representação mental. Além disso, a imaginação pode ser considerada uma faculdade produtiva, na qual as imagens formadas são utilizadas como ferramenta para nossa inteligência trabalhar e elaborar noções abstratas.

De forma mais prática, podemos imaginar uma história que já ouvimos ou lemos. Na medida em que os fatos vão sendo descritos, a minha imaginação proporciona uma viagem por aquela cena, posso imaginar os sentimentos, a paisagem, o clima, sentir o cheiro, até mesmo escutar os sons. Todas essas ações típicas da percepção sensorial se tornam presentes em nossa mente, a história acontece dentro de nós.

O ser humano pode aprender com suas experiências, mas não somente de forma direta. As experiências da imaginação podem proporcionar também aprendizado e fornecer um grande repertório para meditação, reflexão e tomadas de decisão. Não foi a toa que o próprio Jesus usava parábolas para ensinar as pessoas. Eu posso aprender sobre a misericórdia do Pai na parábola do filho pródigo, sem ter cometido nenhum dos atos do filho de forma literal. Mas ao compreender o sentimento do filho, posso identificar sentimentos equivalentes em minha vida, atitudes análogas que me permitem meditar, fazer um grande exame de consciência e através disso e caminhar de volta a casa do Pai.

Em uma sociedade onde as histórias e exemplos que recebemos estão longe dos valores que cremos, não é de se espantar que a mensagem de Cristo cause tanto espanto e que as virtudes sejam consideradas cada vez mais impossíveis de serem vividas. Uma sociedade com uma imaginação mal formada é uma sociedade com uma noção de possibilidades mal formada.

Quantas vezes as pessoas se encantam com a beleza do que é pregado em um retiro, mas ao final do encontro dizem: “tudo isso é lindo, mas não é possível no mundo de hoje”. Outras vezes ainda, podemos escutar: “não seja radical, está todo mundo fazendo”. A falta de exemplos, e mais ainda, a falta de um imaginário bem formado nos faz descrentes do que podemos viver.

A falta de uma cultura da virtude, uma cultura que não seja só de frases feitas de Facebook, mas uma cultura que inspire a imaginação através de uma boa música, uma pintura que me faça viajar, um livro que me faça viver experiências, confrontar situações limites, uma cultura digna de ser chamada de cultura, faz com que desacreditemos da própria virtude e não enxerguemos a sua beleza. Se eu só escuto músicas simplórias, sempre com a mesma harmonia, como vou apreciar as artes verdadeiramente belas. Se eu guardo letras pornográficas, que desvalorizam as pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus, em minha mente, como vou enxergar o reflexo de Deus no próximo. Se no meu repertório imaginativo se encontram esses tipos de valores, como vou almejar encontrar uma mulher virtuosa, como irei almejar ser um homem capaz de dar a vida pela minha família. E isso vale também para a mulher almejar ser virtuosa e encontrar este homem capaz de se sacrificar. A falta de uma imaginação repleta de valores nos faz baixar o nível em nossas atitudes e escolhas.

Já é tempo daqueles que querem viver a virtude educar a sua imaginação de forma correta. Primeiramente, devemos parar de deseducá-la. Que tipo de lugares freqüentamos? Que tipo de filmes assistimos? Que histórias lemos? Quais são as músicas que tocam no meu carro? É preciso analisar se tudo isto está cooperando para uma boa formação do nosso imaginário. Depois disso devemos buscar encher as talhas, ou seja, colocar coisa boa em nosso repertório. Talvez os bons filmes não possuam os melhores efeitos especiais. Talvez os bons livros não estejam expostos na prateleira da frente da livraria. Uma boa música pode não ser encontrada no Top 10. No entanto, com certeza a busca por esse material valerá a pena e com certeza essa própria busca já ajudará você a crescer na virtude. Aquele que busca, encontra. A humanidade já produziu muita coisa boa, talvez você só não consiga imaginar.

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